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Por Ivo Dantas
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Projeto S.A.M.B.A aposta no aluguel de bicicletas como saída para caos urbano
Andar de bicicleta pelo Recife não é tarefa fácil para quem deseja curtir um bom passeio ou contribuir com a melhora do trânsito e do meio ambiente. As ruas esburacadas, a falta de faixas exclusivas e a insegurança obrigam os que se arriscam a fazer essa tarefa a ficar em constante alerta.
Versátil, podendo ser utilizado tanto para lazer quanto para trabalho, esse meio de transporte é comumente deixado de lado das discussões sobre o futuro da mobilidade urbana. A verdade é que por ser um transporte não-poluente, ocupar pequenos espaços e ainda acabar com o sedentarismo, andar de bicicleta poderia se revelar uma ótima solução para o caos urbano instaurado no Recife, além de uma experiência agradável. Como conta Francisco Cunha em artigo no final desta reportagem, em Paris, projetos de aluguel de bicicletas revelam uma nova face da Cidade Luz e ainda contribuem com a mobilidade da capital francesa.
Foi após conhecer esse estilo de vida que se incorpora pouco a pouco ao dia-a-dia de cidades pelo redor do mundo, como Barcelona, Sevilha, Colonia, que o diretor executivo da empresa pernambucana Serttel, Ângelo Leite, propôs um desafio para sua equipe: criar uma solução local para implantar inicialmente como um projeto piloto no Bairro do Recife. “As bicicletas públicas são um excelente modo de transporte para pequenas distâncias (até 5 km) e podem contribuir para a redução de congestionamentos e emissão de poluentes. Por que não criar um projeto que contemplasse todos esses benefícios para o Recife”, diz.
Assim nasceu o S.A.M.B.A, Solução Alternativa para Mobilidade por Bicicletas de Aluguel que, apesar de pensado para Pernambuco, teve sua primeira instalação no Rio de Janeiro por causa de um edital publicado durante a execução do projeto.
“Por ser a cidade com maior extensão de ciclovias do país, são cerca de 140 km, o surgimento do Rio como opção para implantar o primeiro modelo foi mais do que oportuno”, explica Leite. Atualmente, existem 500 bicicletas em operação e cerca de 50 pontos espalhados pela Cidade Maravilhosa.
No projeto, o usuário se cadastra no site www.mobilicidade.com.br e compra um cartão de acesso, que pode ser diário, semanal, mensal ou até anual, dependendo da necessidade. Nas estações, uma central de controle comanda todo o sistema de forma eletrônica, com liberação da bicicleta através do telefone celular.
Outra novidade do S.A.M.B.A é a criação de uma nova forma de mídia, inspirada no modelo utilizado em Paris pela JC Du Caux, que transforma as bicicletas em outdoors móveis, reduzindo os custos da manutenção do sistema. “Para que sejam implantadas estações de aluguel de bicicletas públicas, se faz necessário investir em políticas de educação, engenharia e fiscalização. Podem ser aproveitadas as ciclovias existentes e construídas ciclofaixas ou faixas compartilhadas de baixa velocidade, como tem acontecido no Rio de Janeiro. Atualmente, estamos conversando com o Porto Digital para apresentar o projeto para a Prefeitura do Recife”, conta o diretor da Serttel.
Se o Rio de Janeiro possui uma extensa malha cicloviária e teve edital publicado para iniciar um projeto de aluguel de bicicletas, o Recife parece ainda engatinhar para a adoção de bikes como um meio de transporte viável. Fundador do grupo de ciclistas Cicloadventure, em 2005, Alcides Neto reclama da falta de ciclovias e faixas exclusivas na cidade. “O Recife não conta com uma estrutura para bicicletas. Todas as obras de ciclofaixas ou ciclovias não são interligadas. Posso dizer que todas são destinadas para fins políticos ou para um lazer social”.
Segundo dados fornecidos pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), o Recife conta atualmente com 23 km preparados para o público ciclista, dentre ciclovias e ciclofaixas. “Nosso objetivo é chegar a 60 km construídos em breve. Quando iniciamos o trabalho, há oito anos, não havia um quilômetro sequer pronto. É um trabalho difícil, até porque mexe com a questão cultural de que o carro é o melhor transporte”, conta o diretor de projetos da CTTU, Manoel Damasceno.
Muito criticada, a ciclovia da Avenida Boa Viagem responde por 8 km do total construído na cidade e é vista por Damasceno como um referencial. Para ele, as críticas são meramente culturais, de quem é usuário de carro e não consegue visualizar os benefícios das bicicletas. “Quem tem seu veículo próprio sempre vai querer mais vias, só que o Recife não aguenta absorver os quatro mil novos carros que entram em circulação todos os meses. É preciso começar a pensar diferente, e as bicicletas podem ser uma boa saída”, defende.
Para Alcides Neto, existem mais prós do que contras no modelo escolhido para a construção da via em Boa Viagem. “O desenho não suporta muitas bicicletas, o zig zag é necessário para que o ciclista não consiga desenvolver uma velocidade alta. Quanto às reclamações dos moradores, acredito que basta uma reflexão dos mesmos: Se não tem ciclovia, as bicicletas estariam na faixa de rolagem dos veículos e com certeza seria pior. E, sem elas, onde os moradores de Boa Viagem iriam pedalar? Lembro-me que antes da ciclovia, havia a ciclofaixa que os motoristas utilizavam para fazer suas ultrapassagens e estacionar”, diz Neto.
Dentre os projetos em andamento para acrescentar novos espaços para o trânsito de bikes pelo Recife está a criação da ciclovia da Avenida Norte, que segue da Ponte de Limoeiro até a Avenida Agamenon Magalhães. Segundo a CTTU, a idéia é reduzir as calçadas, que atualmente têm 4 metros, deixando 2,5m livres para a circulação de ciclistas. “Estamos pensando em outras faixas também, como nas avenidas Navegantes e Antônio Falcão, mas que só seriam viáveis se fosse possível resolver o problema do estacionamento nessas áreas”, adianta Damasceno.
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De bicicleta em Paris
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Por Francisco Cunha
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Com o livro de Célia da Fonte Longman (“Dias em Paris”) em mãos, fazendo as vezes de um novo e peculiar guia turístico, parti para a capital francesa decidido a uma renovada visita a essa que, sem a menor sombra de dúvidas, é a cidade mais civilizada e mais bonita do mundo (a segunda, nem precisa dizer para quem me conhece, é o Recife, claro!). Além disso, parti também com o propósito de experimentar a mais nova alternativa parisiense de deslocamento urbano: as bicicletas públicas.
Já tinha tido a oportunidade de andar em Paris a pé, de metrô, de ônibus, de taxi e de carro. De bicicleta e de moto, nunca. De moto, tenho certeza que jamais andarei, mas de bicicleta fiquei tentado depois de ler algumas matérias sobre a nova moda parisiense. Na condição de ex-jovem pioneiro ciclista das chamadas bicicletas “de corrida” (quando as “de marcha” eram absoluta novidade), fui fisgado pela curiosidade e pela saudade dos velhos tempos. Uma coisa, no entanto, me deixava cabreiro. Quando cometi a imprudência de dirigir um carro alugado pelas ruas da cidade, fiquei vivamente impactado com a dificuldade. Difícil de dirigir, de estacionar, de trafegar. Um trânsito super-pesado com motoristas que praticam, com absoluta naturalidade, um jogo duro capaz de intimidar até quem aprendeu a dirigir numa cidade com trânsito nada amigável como o Recife. Num determinado momento, me vi preso numa daquelas praças giratórias que os portugueses chamam de “rotunda”. Depois de várias voltas tentando, sem nenhum sucesso, sair pela direita e sendo solenemente trancado pelos meus colegas circunstanciais de direção, enchi-me de coragem, fechei os olhos e, seja o Deus quiser, descambei pela direita disposto a arcar com as lamentáveis consequências de uma colisão. Só assim consegui sair. Não fosse isso, tenho certeza, teria ficado rodando até acabar a gasolina. Aliás, neste caso, repetiu-se no trânsito um fenômeno comumente observado nas relações dos estrangeiros (em especial dos que não são naturais dos países do primeiro mundo) com os parisienses: se o sujeito vacilar ou “entrar abaixadinho”, eles botam pra quebrar, mas se você revidar no mesmo diapasão, eles recuam e chegam até a pedir desculpas. Esquisitos os costumes…
Minha dúvida era justamente essa: se eles fazem isso com quem dirige carros, o que seriam capazes de fazer com quem está andando de bicicleta? Mas, qual não foi minha surpresa ao me deparar com atitude completamente diferente.
Para começar, me dirigi a uma das quase 800 estações que distam, no máximo, 300 metros umas das outras, e usando meu cartão de crédito fiz o abonnement (subscrição) de curta duração, ao preço de 1euro por dia (há também a opção de 5 euros por semana e 29 euros por ano). Além disso, é bloqueada no cartão uma pré-autorização de 150 euros como caução para o caso de a bicicleta não ser devolvida dentro do prazo de 24 horas. Trata-se de uma espécie de seguro contra roubo ou extravio. Se nada acontecer, o valor não é debitado. Depois de destravada a bicicleta, a subscrição dá direito ao uso gratuito por 30 minutos até o travamento em outra estação. Se a opção do ciclista for pedalar além desse prazo, é cobrado 1 euro a cada 30 minutos adicionais. A idéia é que haja rápida circulação e, consequentemente, célere rotação das bicicletas.
O sistema chama-se Vélib, junção abreviada das palavras velo (bicicleta em francês) e liberté (liberdade). As bicicletas são padronizadas, com três marchas de velocidade, cesta para carregar volumes na frente, campainha “trim-trim” e farolete permanentemente ligado, independente da hora do dia (pedalou, acende). É proibido, sob pena de multa, andar mais de uma pessoa simultaneamente na biclicleta.
Depois do destravamento numa estação em Montparnasse, sudoeste de Paris, saí pedalando timidamente até ir ganhando coragem e me surpreender com o respeito de motoristas de carros particulares, taxis e ônibus ao ciclista. Passei pelo centro da cidade na frente daqueles monumentos todos, atravessei o Sena duas vezes, passando pela Île de La Cité, frente da Catedral de Notre-Dame e fui até o Parc de La Villette, nordeste da cidade. No trajeto andei por inúmeras ciclovias exclusivas e, em boa parte do percurso, compartilhando as faixas privativas de ônibus. No chão está lá: o nome “bus” e o símbolo da bicicleta. Em La Villette, travei a bicicleta numa estação e fui fazer um passeio a pé. Na volta, peguei outra e fiz o caminho de volta com direito a baldeação na Place de La Bastille.
Depois que me acostumei, só tive mesmo receio quando chegou a hora de passar pelas terríveis rotundas. É, sem dúvida, a parte mais exigente do trajeto porém, por incrível que possa parecer, bem menos difícil do que de carro, em razão do respeito dos motoristas. Por essa, sinceramente, eu não esperava…
Pelo caminho (calculo que pedalei cerca de 15 quilômetros, cruzando a cidade de um extremo a outro, na ida e na volta) pude prestar atenção na grande quantidade e diversidade de ciclistas usando o sistema.
Estudantes, pessoas de meia idade, idosos e até executivos, de ambos os sexos, pedalam na maior naturalidade, pra lá e pra cá, como se fizessem isso desde criancinhas. Aliás, em Montparnasse, vi um pai levando um filho na sua bicicleta particular seguido pela filha numa bicicleta infantil, trafegando pela faixa compartilhada com os ônibus. Na maior tranqüilidade. Prova mais explícita de civilidade, confesso que ainda não vi…
Notei também um outro novo fenômeno pelas ruas parisienses: a grande quantidade de automóveis compactos, liderados pelo Smart, o compacto de dois lugares, 1 metro menor que o Uno, fabricado pela Mercedes Benz. Há quatro anos, quando estive pela última vez na cidade, tinha notado o Smart como absoluta exceção curiosa. Agora, tinha tantos que cheguei a ver três deles estacionados juntos…
Penso, pelo que pude observar e pelo fato de ser Paris um local que antecipa tendências, que as bicicletas e os carros compactos (liderados pelo Smart, mas já com modelos de todas as montadoras) são evidências de um mesmo fenômeno: a mudança dos paradigmas de mobilidade nas grandes cidades. Nesse cenário, os automóveis particulares tradicionais serão cada vez mais confrontados com alternativas tais como melhoria dos sistemas de transporte público, aumento dos compactos, aumento do número de bicicletas e motos, restrições à circulação etc.. Guardadas as devidas proporções e adaptação à realidade tropical, essas tendências já começam a chegar por aqui também. Vamos ver como se manifestam em nossas cidades, infelizmente, tão menos civilizadas do que a velha Cidade Luz francesa…
Seja como for, recomendo: em Paris, não deixe de dar uma voltinha de bicicleta. Vale muito a pena.
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Matérias publicadas na Revista Algomais, nº 40

