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Entrevista: José Pinteiro da Costa, advogado especialista em propriedade intelectual

Hoje em dia, com o sucesso do movimento opensource a disponibilidade de códigos-fontes de terceiros cresceu vertiginosamente, de forma que é quase impossível um produto que contenha software não ter reusado código-fonte de terceiros

Hoje em dia, com o sucesso do movimento opensource é quase impossível um produto que contenha software não ter reusado código-fonte de terceiros

Advogado, especialista em propriedade intelectual, José Pinteiro da Costa participou recentemente de palestra sobre o reuso de softwares nas empresas durante o IV Wire, que reuniu diversos especialistas de países como Estados Unidos, Holanda e Brasil. Nessa entrevista, ele fala sobre os benefícios e riscos dessa prática e sobre o futuro da propriedade intelectual na era da internet. Boa leitura!

Arena Tecnológica – Em que consiste o reuso de programas e códigos-fonte por empresas?

José Pinteiro – Trata-se, dentro da engenharia de software, do reaproveitamento de componentes de softwares produzidos anteriormente pela empresa (ou de códigos-fontes de terceiros) para a produção de novos softwares, ou para agregar funcionalidades em programas de computador existentes. É, trocando em miúdos, não “reinventar a roda” toda vez que se for criar um sistema novo, reaproveitando partes de programas pré-existentes. Hoje em dia, com o sucesso do movimento opensource ( http://en.wikipedia.org/wiki/Opensource ) a disponibilidade de códigos-fontes de terceiros cresceu vertiginosamente, de forma que é quase impossível um produto que contenha software não ter reusado código-fonte de terceiros (exemplos disso são o mp3 player IPOD, da apple, que tem fontes e parte da plataforma gráfica baseados em softwares opensource; as TVs digitais e conversores de TV digital da Philips, que utilizam partes do linux e de outros softwares livres e o próprio Windows, da microsoft, cujo protocolo TCP/IP e a ferramenta ftp foram baseados no reuso de código fonte do Unix BSD). Pode-se dizer, assim, que não utilizar o reuso, nos dias atuais em que os programas de computador são compostos normalmente de centenas de milhões de linhas de código-fonte, torna inviável a produção de softwares competitivos.

A.T –  Quais os perigos desse tipo de prática? Existem benefícos?

J.P – Começando pelos benefícios: permite um gigantesco ganho de agilidade e economicidade na produção de softwares, uma vez que se poupa o tempo de implementação, controle de qualidade e depuração quando se reusa códigos-fontes. Os riscos podem ocorrer da mistura de códigos-fontes de terceiros com aqueles desenvolvidos in house, ou seja, na empresa: neste caso tem-se que fazer uma checagem de compatibilidade entre as licenças dos softwares. Agora os riscos: caso emblemático de problema legal do reuso, e recente, foi o da empresa ATARI (é, eles ainda existem) que utilizou o código-fonte de um programa opensource chamado scummvm para portar seus jogos para a plataforma WII da Nintendo. O reuso do scummvm permitiu que um trabalho de tradução dos jogos para aquela plataforma, que demoraria de 6 meses a um ano e custaria talvez algumas centenas de milhares de dólares, fosse feita em apenas algumas semanas. Ocorre que a licença do kit de programação do WII não permitia o uso de softwares opensource naquele console e, de outro lado, a licença do scummvm exigia que qualquer mudança no código-fonte do scummvm fosse disponibilizada de volta para a comunidade. A Atari ficou, assim, numa situação insustentável: não podia distribuir as alterações no código-fonte do scummvm pois seu contrato com a nintendo não permitia e também não podia deixar de distribuir as mesmas alterações pois era isto que exigia a licença do scummvm. O resultado foi que a Atari, a título de acordo para evitar uma demanda judicial por parte dos autores da scummvm, deixou de produzir os jogos (que já estavam à venda, ressalte-se) e pagou multa de valor não divulgado, mas que foi revertido à Free Software Foudation. A Atari não teria passado por este problema se tivesse realizado uma análise das licenças dos softwares, com intuito de detectar justamente este tipo de incompatibilidade. Assim, pode-se dizer que, se existe risco neste tipo de operação este é facilmente contornável através de um trabalho de due diligence por parte de advogado especializado em Propriedade Intelectual.

A.T – Existe legislação que regulamenta o reuso?

J.P – Não propriamente o reuso, mas os softwares como um todo são regulamentados pelas leis federais 9.609 e 9.610.

A.T – Existem números sobre a quantidade ou perfil das empresas que costumam adotar esse tipo de prática?

J.P – Basicamente, toda e qualquer empresa de software/tecnologia da atualidade que seja competitiva utiliza, em graus variados, o reuso de software.

A.T - O brasileiro costuma respeitar o direito a propriedade intelectual?

J.P – Ainda há muita desinformação entre os brasileiros sobre o que é legal e o que é ilegal em termos de PI, a maioria não sabe sequer que pode proteger suas criações, sejam elas marcas, invenções, designs, obras de arte, topologias de circuitos impressos ou programas de computador, e, por causa deste desconhecimento, muitas vezes deixam suas criações cairem em domínio público.

A.T – Na briga entre indústria e a dita liberdade de troca de arquivos pela internet os dois lados já colecionaram derrotas, sendo as da indústria mais impactantes Existe a possibilidade de encontrar um meio-termo nessa disputa? Criar um novo modelo de negócio?

J.P – Estamos passando pela revolução da informação, a “revolução industrial” de nosso tempo. Nesta nova revolução determinados modelos de negócio ficarão insustentáveis e serão substituídos por outros, mais adequados ao nosso tempo (assim como na revolução industrial as guildas de artesãos foram substituídas pelas indústrias). Para alguns ramos pode ser que não exista o meio termo e eles estejam destinados a deixar de existir, ao menos na forma que existem hoje. Sem dúvida, além do combate à pirataria, por ações criminais e cíveis contra os produtores (e não os usuários, como se tem feito nos EUA e só tem trazido mais descontentamento da população contra as associações de direitos autorais), estas empresas terão de criar novos modelos de negócio que se mostrem mais vantajosos para o usuário do que a opção pirata.

A.T – Como o sr. acredita que será o futuro da propriedade intelectual?

J.P – Tende a acabar todo e qualquer tipo de proteção aos direitos autorais? Não acredito que acabem os direitos autorais. Para a maioria dos autores (seja de softwares, de livros, de obras de arte, de músicas etc.) é justamente o Direito Autoral que garante que receberão recompensa por seu esforço criativo e, sem ele, não teriam como sobreviver. Na verdade, se olharmos o histórico da humanidade, nenhuma nova tecnologia (ao menos que me recorde) conseguiu aniquilar totalmente a tecnologia anterior (vejamos alguns exemplos: o rádio não acabou com os impressos, a TV não acabou com o rádio e a internet não acabou com a TV; a bicicleta não acabou com a cavalgada, o carro não acabou com a bicicleta e o avião não acabou com o carro ou o navio; a agricultura não acabou com o extrativismo etc.). Neste prisma, creio que, assim como ocorreu em outros momentos de transição tecnológica, haverá uma dura fase de adaptação do modus operandi do Direito de Autor, e das obras em si mesmas, às técnicas disponibilizadas com as tecnologias que estão à nossa mão e que ainda serão criadas.

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Entrevista: Eduardo Peixoto, executivo-chefe de negócios do CESAR

 
Eduardo Peixoto é executivo-chefe de negócios do C.E.S.A.R e idealizador do projeto Tocaê

Eduardo Peixoto é executivo-chefe de negócios do C.E.S.A.R e idealizador do projeto Tocaê

Executivo-chefe de negócios do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), Eduardo Peixoto (htttp://twitter.com/ecpeixoto) é um dos idealizadores do projeto Tocaê, de venda de faixas musicais através de Bluetooth para celulares. Nessa entrevista ele avalia a briga entre a livre distribuição de conteúdo pela web e as gravadoras, além de opinar sobre a venda do Pirate Bay, o futuro da distribuição musical, e faz um prognóstico: “A indústria como é hoje vai desaparecer ou tornar-se irrelevante”.

 Boa Leitura!

 

Como o sr. avalia o modo com que a internet é utilizada por muitas pessoas para troca de arquivos como músicas, vídeos e prgramas de forma ilegal. Sem pagar direitos autorais?

O senso comum diz que download “ilegal” representa perda de receita, uma venda a menos para para quem produziu aquele conteúdo. Só senso comum! Bandas como Radio Head e Cold Play lançam novos discos com downloads gratuitos por algumas semanas. Veja o caso dos brasileiros Calypso, que distribuem gratuitamente, para cópia e venda, CDs no mercado “pirata” semanas antes dos shows.

Com livros já acontece em parte o mesmo. O google/books, por exemplo, disponibiliza de forma legal capítulos de livros, para serem “experimentados”, antes de comprados. O site Hulu (ainda fechado para o Brasil) agrega conteúdo produzido para os principais canais de TV americanos e disponibiliza para sua audiência de forma totalmente grátis (o serviço é suportado com anúncios como na TV aberta). Os modelos mudaram, a economia na era da internet é outra!

Pode existir um fim nessa disputa entre a indústria e os defensores do livre trânsito desse conteúdo?

Eu acredito que a indústria como é hoje vai desaparecer ou tornar-se irrelevante.

Existe algum lado que esteja ganhando essa briga?

Conteúdos culturais, uma vez digitalizados, vão cair na rede e serão distribuidos “gratuitamente”. E isso é irreversível. Os modelos de monetização precisam ser repensados. Também não acredito que apenas um modelo vá sobreviver. Cada produto cultural deverá encontrar substitutos para as vendas físicas tradicionais. Elas serão marginais no médio/longo prazo.

Acredita que exista algum modelo de negócio, no momento, que pudesse solucionar essa disputa?

Existem vários que estão dando certo. O Calypso é o melhor nacional que eu conheço. A receita vem de shows! O resto é percebido como divulgação do conteúdo. Outro exemplo é Tecnobrega do Pará, que não está nem aí pra venda de CDs. A indústria de software foi a primeira a sofrer com cópias ilegais, e esta se re-inventando com SaaS (Software as a Service) e não por este motivo.

Como você vê sites como o Itunes, Amazon.com, Baixahits, que vendem músicas por unidade? Porquê, apesar de terem relativo sucesso, não conseguem fazer com que boa parte dos internautas mudem o conceito de que “baixar de graça é melhor”?

Não acho que o pensamento seja que baixar de graça é melhor. Penso que é uma questão da oferta. As lojas de música virtuais entregam música por um custo infinitamente menor do que quem distribui mídia física. No entanto, o preço por faixa permanece praticamente o mesmo. Temos experiência na distribuição de outros conteúdos culturais, que quando o preço cai para a metade, a compra aumenta quatro vezes.

E os projetos de Software Livre? São uma saida interessante?

Os projetos de software livre normalmente evoluem pra modelos subsidiados (alguém ou produtos mais completos pagam pelo uso de produtos mais simples). Existem algumas experiências ocorrendo até para construção de hardwares complexos como telefones celulares. É uma alternativa interessante.

Sites como o Pirate Bay, recentemente negociado, vão deixar de existir?

Nunca!

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